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Sebastião Nery

Isabelita sem perón

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29/10/2010 09:57h

Em agosto de 1955, a Argentina sangrava numa das mais dramáticas histórias da América Latina no século. Fui a Buenos Aires. De ônibus para Porto Alegre, de lá para a Argentina. E vi o mundo pela primeira vez. Muitos jornalistas brasileiros, sobretudo gaúchos, entre europeus e latinoamericanos. Os fins de tarde no bar do hotel Plaza pareciam uma redação enlouquecida.

Os boatos se multiplicavam. Todos os dias o Exército e a Marinha aderiam à Aeronáutica e "derrubavam" Perón. Mas Perón continuava, como continuava nas ruas, em furiosas manifestações, a Confederação Geral dos Trabalhadores, a CUT peronista. Até que numa manhã era mesmo verdade.

BUENOS AIRES

Em um pequeno hotel perto do Plaza e da rua Florida, ouvi bombas a cada instante mais continuadas. Corri para a Casa Rosada, com seus balcões cor de terracota avermelhada. Perón e Evita já não estavam mais lá, falando ao povo, como em outros tempos. Evita havia morrido desde 1952. De Perón não se tinha notícia. O Exército já havia cercado a praça.

Ninguém passava. Ainda bem. Assim nos livramos, outros jornalistas e eu, das pesadas bombas da Aeronáutica jogadas sobre os jardins do palácio, por seus aviões de caça dando rasantes. Passavam sobre nossas cabeças, nos cantos da praça, mergulhavam, soltavam as bombas, subiam.

Algumas caíam pertinho de nós, protegidos atrás das colunas dos edifícios. Foram três dias de furor, de 16 a 19 de setembro. Exército, Marinha, Aeronáutica exigiram que Perón renunciasse. Numa canhoeira paraguaia, fundeada no porto, Perón foi-se embora para o exílio, em Madrid.

BORGES

A imprensa foi entrevistar o poeta-gênio Jorge Luis Borges, que havia sido por ele demitido da Biblioteca de Buenos Aires, e estava na varanda de sua casa, lendo. Borges disse apenas:

O excelentíssimo senhor general e ex-presidente da República Juan Domingo Perón é um canalha.

Quase vinte anos depois, em 1974, já cego, Jorge Luis Borges estava na varanda de sua casa ouvindo a secretaria ler para ele, quando a imprensa chegou para ouvi-lo sobre a morte de Perón. Borges disse apenas.

O excelentíssimo senhor general e ex-presidente da República Juan Domingo Perón era um canalha.

O general Pedro Aramburu, adido militar no Brasil em 1951, assumiu o governo. Em maio de 70, foi sequestrado e encontrado morto nos arredores de Buenos Aires. E durante quase 30 anos, com os intervalos civis de Arturo Frondisi, José Maria Guido e Arturo Ilia, os generais, inclusive Perón, ensanguentaram a Argentina e mataram mais de 30 mil argentinos.

EVITA

Perón era capitão em 1930 e ajudou a derrubar o presidente Hipólito Yrigoyen. Foi adido militar no Chile e Itália de 39 a 41:

Mussolini é o maior homem do século, mas cometeu erros que não cometerei.

Com ele, um grupo de jovens militares criou o GOU (Grupo de Oficiais Unidos), simpático ao nazismo e fascismo da Alemanha e da Itália. Em junho de 43, derrubaram mais um presidente, Ramon Castillo. Em 44, o já coronel Perón foi nomeado secretário do Trabalho. Depois, vice-presidente e ministro da Guerra. Em 45, fim da guerra, preso e logo solto.

Casou com María Eva Duarte, a Evita. Em 46, elegeu-se presidente da República. Em 49, reformou a Constituição para poder reeleger-se. Fechou o jornal La Prensa, interveio nas Universidades, brigou com a Suprema Corte. E em 51 se reelegeu. Governava com os sindicatos. Era o ovo da serpente. Incendiou a Argentina e jogou-a nos quartéis dos militares.

ISABELITA

Em 1973, os militares não tinham mais como sustentar sua sangrenta ditadura. Perón lá da Espanha elegeu seu laranja Héctor Cámpora, que logo renunciou para ele voltar, candidatar-se e ganhar, tendo como vice a nova mulher, María Estela Martínez, a Isabelita. Durou um ano, morreu em julho de 74 e Isabelita Perón assumiu o governo. Agravou-se a tragédia argentina.

Medíocre, despreparada, pau-mandado, sem experiência política e administrativa anterior, Isabelita entregou o governo à direita negocista e terrorista, a Tríplice A, e à pelegada sindical da CGT (Confederação Geral dos Trabalhadores), a CUT deles, cheia do dinheiro do FAT deles.

O país caiu na baderna. Era inevitável. Os militares voltaram mais uma vez e a Argentina caiu numa nova rodada de violência e assassinatos.

DILMA

A sorte do Brasil é que Lula não é Perón, não é Hugo Chávez, que sempre tiveram grupos militares atrás deles, sustentando suas loucuras. O peronismo tinha canhões. O chavismo tem. Lula, para tentar implantar seu lulismo, teve de sustentar-se na corrupção, cevando o Congresso nos cochos do "mensalão", comprando centrais sindicais, movimentos sociais, jornalistas e intelectuais de aluguel, e até nossa outrora gloriosa UNE.

Quando vejo a Dilma na TV, com aquele atravessado sorriso botox, repetindo sempre o que mandam dizer, penso logo na Isabelita, marionete ventríloqua como a nossa, uma Isabelita falando português e fazendo tudo que Lula, Franklin, Dirceu, Palocci, Eduardo Cunha, Gim Argello ordenam.

A Erenice, aquele charme de anta de óculos, instalou uma fábrica de corrupção dentro da Casa Civil. O perigo é Dilma ser dominada pela gula insaciável dos cuequeiros aloprados do PT e virar uma Isabelita sem Perón.

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