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Sebastião Nery

O Vício da Vice

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30/06/2010 09:23h

O Brasil tem o vício da vice. Brigaram pela vice de Dilma, agora brigam pela vice de Serra. Meu saudoso amigo Odin Andrade, jornalista e mineiro, tinha uma tese muito sábia sobre o vice:

Eu trato bem o vice. Qualquer vice. O vice é um carente, um desprotegido. Está sempre esperando, esperando, como o Pedro Pedreiro de Chico Buarque esperando o trem. Quando chega a sua chance, o vice fica úmido de gratidão. E você está bem com ele.

A República já começou com um vice, Floriano Peixoto, derrubando o titular, Deodoro da Fonseca (1891-94). Depois, veio Nilo Peçanha (1909-10) em lugar de Afonso Pena, morto na presidência. E Delfim Moreira (1918-19) com a morte de Rodrigues Alves.

CELSO MACHADO

Outros nem chance têm de assumir. Eles é que morrem. Celso Machado, mineiro ilustre, culto, jornalista, deputado estadual, constituinte de 1934 e 1946, era um dos cardeais do PSD, secretário do Interior de Benedito Valadares e dos governos de Bias Fortes e Israel Pinheiro.

Quando Médici nomeou Rondon Pacheco, da velha UDN, governador de Minas, era preciso encontrar, para vice, um pessedista que não atrapalhasse, não ameaçasse o udenista Rondon. Era Celso Machado.

Como não gostava de encontros sociais, Rondon encarregava Celso Machado que, mais de 70 anos, ia aos coquetéis e recepções oficiais.

Seis anos de governo, não resistiu. Causa mortis: vice.

JANGO E ALCKMIN

Jânio renunciou em 1961 para obrigar as Forças Armadas a negarem posse ao vice João Goulart e ele voltar por cima da carne seca do Congresso. Jango acabou tomando posse e Jânio tomando porres.

No golpe de 64, vice não valia, era enfeite. Castelo, primeiro ditador, e Luís Viana, da Casa Civil, passavam pelo Túnel Novo, em Copacabana, um caminhão desgovernado quase foi em cima do carro da Presidência. O presidente, pálido, olhou para Luís Viana, ainda mais pálido:

Em que é que o senhor pensou, Dr. Luís?

Pensei no Alkmin (vice de Castelo).

Que não poderia assumir.

Como Pedro Aleixo não assumiu quando Costa e Silva derramou.

AURELIANO Marco Maciel, Guilherme Palmeira e Jorge Bornhausen, senadores do PDS, começaram a reunir-se em 1984 para organizar a Frente Liberal, uma dissidência do PDS destinada a apoiar a candidatura de Tancredo Neves a presidente da República no Colégio Eleitoral contra Paulo Maluf.

Aureliano Chaves, vice brigado com Figueiredo, logo assumiu a liderança do grupo. Marcaram uma reunião com Ulysses Guimarães para discutirem a formação da Ação Democrática, a aliança do PMDB com a Frente Liberal. Quando Ulysses chegou, tomou um susto. Aureliano tinha levado um gravador e posto sobre a mesa, ligado. Era o Juruna mineiro.

Mais no fim do ano, antes de o Colégio Eleitoral reunir-se em janeiro, a Frente Liberal, já formada, fez uma reunião para acertar quem iriam propor a Tancredo como vice-presidente. Marco Maciel, o primeiro sugerido pelo grupo, dizia que não queria ser vice. Não convencia muito. Sarney, o segundo, também dizia, mas não convencia nada.

SARNEY

Resolveram tratar antes dos ministérios. Marco Maciel propôs o da Educação. Sarney foi contra. Era "um abacaxi, professores reivindicando e estudantes fazendo greves". Preferia o da Previdência, que "tinha recursos".

Marco não concordava. Sarney saiu para ir ao banheiro. Palmeira foi atrás. Enquanto Sarney fazia xixi, ele, encostado na porta, catequizava:

Sarney, o Marco quer a Educação para ele, é o sonho dele. E é a única maneira de você ser o vice.

Sarney voltou rápido e defendeu o ministério da Educação para Marco Maciel. E a vice caiu sobre a cabeça de Sarney como uma tonsura. Sarney saiu para vice, Marco Maciel para a Educação e Aureliano para Minas e Energia. Sarney foi feito vice-presidente em um xixi do PFL.

ITAMAR

Apesar do empenho dos amigos Hélio Costa, Renan Calheiros e outros, Itamar Franco só decidiu ser vice de Collor numa madrugada, no gabinete do ministro da Cultura, José Aparecido. Depois de horas de discussão, Aparecido o convenceu assim (vi e ouvi):

Se você se eleger vice de Brizola, não muda nada na política de Minas. Brizola não entra em Minas. E, se perder, você fica mal. Mas se se eleger vice de Collor, você comanda Minas. E, se perder, não perde nada.

A entrada de Itamar no PRN e o registro da candidatura no cartório de Juiz de Fora, no último minuto, foi uma operação de desespero. Depois, Itamar foi a Minas com Collor para um debate na Federação das Indústrias. Quando descemos na Pampulha, estava lá, aflito, o Odin Andrade:

Nery, preciso te falar. O Collor não pode cometer a loucura de ter Itamar como vice. O Itamar tem uma estrela maior do que aquela do nascimento de Jesus Cristo. Se ele for o vice, Collor não acaba o mandato e ele vai ser presidente. Diz ao Collor que Itamar é um raio.

Na volta para Brasília (Itamar ficou em Belo Horizonte), contei a conversa a Collor. Deu uma gargalhada. Riu da verdade. E deu no que deu.

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